terça-feira, 8 de março de 2016

Decadência

Inimigos 

O apelido de Maria Tereza, para Norberto, era ‘Quequinha’. 

Depois do casamento, sempre que queria contar para os outros uma de sua mulher, o Norberto pegava na sua mão, carinhosamente, e começava: 

- Pois a Quequinha... 

E a Quequinha, dengosa, protestava: 

-Ora, Beto! 

Com o passar do tempo o Norberto deixou de chamar a Maria Tereza de Quequinha. Se ela estivesse ao seu lado e ele quisesse se referir a ela, dizia: 

-A mulher aqui... 

Ou, ás vezes: 

-Esta mulherzinha... 

Mas nunca mais Quequinha. (O tempo, o tempo. O amor tem mil inimigos, mas o pior deles é o tempo. O tempo ataca o silêncio. O tempo usa armas químicas.) 

Com o tempo, Norberto passou a tratar a mulher por Ela. 

-Ela odeia o Charles Brason.

-Ah, não gosto mesmo. 

Deve-se dizer que o Norberto, a esta altura, embora a chama-se de Ela, ainda usava um vago gesto de mão para indicá-la. Pior foi quando passou a dizer ‘essa ai’ e a apontava com o queixo.

- Essa ai... 

E apontava com o queixo, até curvando a boca com um certo desdém. (O tempo, o tempo. Tempo captura o amor e não o mata na hora. Vai tirando uma asa, depois cura) 

Hoje, quando quer contar alguma coisa da mulher, O Norberto nem olha na direção. Faz um meneio de lado com a cabeça e diz: 

- Aquilo...

VERÍSSIMO, Luis Fernando. Novas comédias da vida privada. Porto Alegre, 1996.

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