Passaram 48 horas desde os atos terroristas de Bruxelas mas podiam ter passado 15 anos, como passaram, desde o 11 de Setembro.
Esta é uma realidade insuportável e que continua a ser inaceitável. Mas dois dias depois das explosões que abalaram a Bélgica, a poeira começa a assentar e torna-se possível compreender uma ínfima parte das coisas.
A história dá sempre uma ajuda. E, provavelmente, a primeira lição a retirar é que “isto” não é assim tão novo. No Quartz foi publicado um gráfico que mostra que entre os anos 1970 e 1990, o terrorismo teve consequências bastante mais nefastas na Europa Ocidental do que os ataques produzidos pela Jihad islâmica nos últimos anos.
Se bem se lembram, esses foram os anos do IRA, da ETA e das Brigadas Vermelhas. Só em 1979 tiveram lugar mais de mil ataques terroristas na Europa Ocidental.
Em 1988, a queda do avião em Lockerbie, na Escócia, levou a que a estatística do número de mortos nesse ano subisse até aos 440. Incomparável com o que sucedeu nos últimos dez anos. Nesse caso, o atentado foi atribuído à Líbia de Khadafi.
Porém é notório que entre 1970 e 1994, o número de atentados e o registo de vítimas mortais é bastante superior aos que resultaram dos ataques em Madrid, Londres, Paris e Bruxelas.
Daí há a retirar pelo menos duas conclusões: os jiadistas mataram menos do que os grupos terroristas radicais europeus e o conflito globaldos dias de hoje é sobremaneira agudizado pelo contexto mediático, onde se incluem a cobertura noticiosa dos órgãos de comunicação social e, claro, as redes sociais.
Não parecem por isso fazer tanto sentido análises como a que se encontra na capa do “Público” mas frequentes noutras publicações (como na “Economist” ou no “New York Times”) onde é colocada a interrogação “e se o terrorismo passar a integrar o nosso quotidiano?”. Na verdade, ele já integrou, e não há muito tempo.
Outra conclusão que se retira do número de atentado e mortos provocados pelos atentados terrorista na Europa durante os anos 1970 e 1980, é a de ser possível exterminar o terrorismo. Os principais responsáveis por esses atos estão hoje praticamente inativos.
Mas não é esse o caminho se está hoje a tomar, quando aumenta o número de atentados na Europa e a sua frequência. Levando em conta a imprensa britânica hoje publicada, torna-se claro que sucederamfalhas graves nos sistemas de segurança.
O “Times” é por ventura o jornal mais violento a sublinhar esses erros, que podem ter sido fatais. A Turquia terá extraditado para a Holanda um dos operacionais de Bruxelas, Ibrahim el-Bakraoui, que se suicidou no aeroporto.
Uma notícia que parte de declarações do presidente da Turquia, Erdogan, que reclama ter notificado as autoridades europeias da perigosidade deste guerrilheiro do Daesh quando expulso do seu país.
A indignação que percorre a imprensa inglesa estende-se ao “El País” e ao presidente da Comissão Europeia. Na manchete do diário de Madrid pode ler-se “Juncker culpa os Governos da passividade ante o terrorismo”.
Em conferência de imprensa, Juncker sublinhou a tese de que as medidas que haviam sido previamente acertadas pelos membros da União Europeia não foram, na realidade, adotadas: “se todos os governos tivessem seguido as propostas da Comissão, não teríamos chegado a estes momentos trágicos”, disse.
Mais claras não podiam ser as lágrimas amargas de Federica Mogherini, alta representante para a Política Externa da UE, que, na sequência dos atentados e numa ocasião pública na Jordânia, não teve outra resposta senão o pranto perante o que havia sucedido. Uma demonstração de impotência ímpar.
Não surpreende então que o inexistente sistema de defesa europeu volte a ser colocado na mesa.
Em França, o “Le Figaro” pegunta se “a Europa pode defender-se?”. E aponta um número assinalável de lacunas: ausência de tratamento dos dados de passageiros aéreos, falta de conexão entre os serviços de informação de Schengen e os registos criminais, irrelevância do Frontex, falta de controlo de documentação falsa são apenas o início do rol.
Será por isso que os ministros da Justiça da União Europeia reúnem hoje mesmo, de urgência, em Bruxelas, para alinhar medidas e discutir a resposta que deve ser dada?
Esta é uma realidade insuportável e que continua a ser inaceitável. Mas dois dias depois das explosões que abalaram a Bélgica, a poeira começa a assentar e torna-se possível compreender uma ínfima parte das coisas.
A história dá sempre uma ajuda. E, provavelmente, a primeira lição a retirar é que “isto” não é assim tão novo. No Quartz foi publicado um gráfico que mostra que entre os anos 1970 e 1990, o terrorismo teve consequências bastante mais nefastas na Europa Ocidental do que os ataques produzidos pela Jihad islâmica nos últimos anos.
Se bem se lembram, esses foram os anos do IRA, da ETA e das Brigadas Vermelhas. Só em 1979 tiveram lugar mais de mil ataques terroristas na Europa Ocidental.
Em 1988, a queda do avião em Lockerbie, na Escócia, levou a que a estatística do número de mortos nesse ano subisse até aos 440. Incomparável com o que sucedeu nos últimos dez anos. Nesse caso, o atentado foi atribuído à Líbia de Khadafi.
Porém é notório que entre 1970 e 1994, o número de atentados e o registo de vítimas mortais é bastante superior aos que resultaram dos ataques em Madrid, Londres, Paris e Bruxelas.
Daí há a retirar pelo menos duas conclusões: os jiadistas mataram menos do que os grupos terroristas radicais europeus e o conflito globaldos dias de hoje é sobremaneira agudizado pelo contexto mediático, onde se incluem a cobertura noticiosa dos órgãos de comunicação social e, claro, as redes sociais.
Não parecem por isso fazer tanto sentido análises como a que se encontra na capa do “Público” mas frequentes noutras publicações (como na “Economist” ou no “New York Times”) onde é colocada a interrogação “e se o terrorismo passar a integrar o nosso quotidiano?”. Na verdade, ele já integrou, e não há muito tempo.
Outra conclusão que se retira do número de atentado e mortos provocados pelos atentados terrorista na Europa durante os anos 1970 e 1980, é a de ser possível exterminar o terrorismo. Os principais responsáveis por esses atos estão hoje praticamente inativos.
Mas não é esse o caminho se está hoje a tomar, quando aumenta o número de atentados na Europa e a sua frequência. Levando em conta a imprensa britânica hoje publicada, torna-se claro que sucederamfalhas graves nos sistemas de segurança.
O “Times” é por ventura o jornal mais violento a sublinhar esses erros, que podem ter sido fatais. A Turquia terá extraditado para a Holanda um dos operacionais de Bruxelas, Ibrahim el-Bakraoui, que se suicidou no aeroporto.
Uma notícia que parte de declarações do presidente da Turquia, Erdogan, que reclama ter notificado as autoridades europeias da perigosidade deste guerrilheiro do Daesh quando expulso do seu país.
A indignação que percorre a imprensa inglesa estende-se ao “El País” e ao presidente da Comissão Europeia. Na manchete do diário de Madrid pode ler-se “Juncker culpa os Governos da passividade ante o terrorismo”.
Em conferência de imprensa, Juncker sublinhou a tese de que as medidas que haviam sido previamente acertadas pelos membros da União Europeia não foram, na realidade, adotadas: “se todos os governos tivessem seguido as propostas da Comissão, não teríamos chegado a estes momentos trágicos”, disse.
Mais claras não podiam ser as lágrimas amargas de Federica Mogherini, alta representante para a Política Externa da UE, que, na sequência dos atentados e numa ocasião pública na Jordânia, não teve outra resposta senão o pranto perante o que havia sucedido. Uma demonstração de impotência ímpar.
Não surpreende então que o inexistente sistema de defesa europeu volte a ser colocado na mesa.
Em França, o “Le Figaro” pegunta se “a Europa pode defender-se?”. E aponta um número assinalável de lacunas: ausência de tratamento dos dados de passageiros aéreos, falta de conexão entre os serviços de informação de Schengen e os registos criminais, irrelevância do Frontex, falta de controlo de documentação falsa são apenas o início do rol.
Será por isso que os ministros da Justiça da União Europeia reúnem hoje mesmo, de urgência, em Bruxelas, para alinhar medidas e discutir a resposta que deve ser dada?
Depois de Madrid, Londres, Paris e Bruxelas, parece inevitável que outros ataques se sigam num futuro mais ou menos próximo. Roma, Berlim, Amesterdão ou mesmo Lisboa poderiam ser alvos fáceis ou simbólicos.
Porém, vale a pena deter a atenção noutro gráfico, desta vez publicado pela CNN, que demonstra que os dois atentados de Paris e o de Bruxelas, reivindicados pelo Daesh, podem ser bem diversos dos de Madrid e Londres, reivindicados pela Al Qaeda.
Por uma simples razão, Bélgica e França lideram incontestavelmente o número de jiadistas que habitam o seu território. Em França moram perto de 1200 operacionais do Daesh, muito à frente da Alemanha e Reino Unido, com cerca de 500.
Mas em número relativo, quem vai à frente é a Bélgica com cerca de 1400 jiadistas por cada milhão de habitantes, seguindo-se a Dinamarca, França e Áustria. As diferenças para o resto da Europa são notórias.
Contextos muito diferentes. Mas ainda há mais casos a mudarem de figura. Aquele que anteriormente era conhecido como o “grande polícia do mundo” parece por estes dias desinteressar-se da Europa.
No início da semana, Barack Obama espalhou o seu charme em Havana e ontem dançou o tango em Buenos Aires. Veja aqui a (não tão) brilhante performance do Presidente dos Estados Unidos da América.
Primeiro hesitou, depois avançou pela América do Sul, onde a esquerda folclórica já teve melhores dias, determinado a conquistar o objetivo. A NATO: que é feito dela?
O Expresso está em Bruxelas. Hugo Franco e João Santos Duarte reportam desde terça-feira o que encontram em bairros como Molenbeek e Forest, que nunca sonhávamos ter de vir a conhecer. E reportam muito bem.
Porém, vale a pena deter a atenção noutro gráfico, desta vez publicado pela CNN, que demonstra que os dois atentados de Paris e o de Bruxelas, reivindicados pelo Daesh, podem ser bem diversos dos de Madrid e Londres, reivindicados pela Al Qaeda.
Por uma simples razão, Bélgica e França lideram incontestavelmente o número de jiadistas que habitam o seu território. Em França moram perto de 1200 operacionais do Daesh, muito à frente da Alemanha e Reino Unido, com cerca de 500.
Mas em número relativo, quem vai à frente é a Bélgica com cerca de 1400 jiadistas por cada milhão de habitantes, seguindo-se a Dinamarca, França e Áustria. As diferenças para o resto da Europa são notórias.
Contextos muito diferentes. Mas ainda há mais casos a mudarem de figura. Aquele que anteriormente era conhecido como o “grande polícia do mundo” parece por estes dias desinteressar-se da Europa.
No início da semana, Barack Obama espalhou o seu charme em Havana e ontem dançou o tango em Buenos Aires. Veja aqui a (não tão) brilhante performance do Presidente dos Estados Unidos da América.
Primeiro hesitou, depois avançou pela América do Sul, onde a esquerda folclórica já teve melhores dias, determinado a conquistar o objetivo. A NATO: que é feito dela?
O Expresso está em Bruxelas. Hugo Franco e João Santos Duarte reportam desde terça-feira o que encontram em bairros como Molenbeek e Forest, que nunca sonhávamos ter de vir a conhecer. E reportam muito bem.
Foram tomar uma bica ao café que Salah Abdeslam, o jiadista preso há menos de uma semana e que esteve envolvido nos atentados de Paris, costumava frequentar. Pois bem: o estabelecimento é propriedade de portugueses que asseguram que Salah era bom moço e gente pacata.
“Nunca deu problemas” e gostava de jogar ao bingo. Como está próximo o homem que, tudo indica, espoletou os ataques em Bruxelas. A esse propósito vale bem a pena ler a coluna de Henrique Monteirono Expresso Diário de ontem: “eles são humanos e praticam o mal”.
Eu diria que estranhamente compaginável com a coluna de Daniel Oliveira: “As vítimas daqui e de lá”, também no Expresso Diário. Mas onde um vê vítimas, o outro vê o bem. E para o outro, onde estão os algozes é que está a morada do mal.
E se, voltando ao princípio deste Expresso Curto, pudéssemos esquecer a religião dos operacionais de Bruxelas como provavelmente já esquecemos a filiação política dos terroristas da ETA e do IRA?
“Nunca deu problemas” e gostava de jogar ao bingo. Como está próximo o homem que, tudo indica, espoletou os ataques em Bruxelas. A esse propósito vale bem a pena ler a coluna de Henrique Monteirono Expresso Diário de ontem: “eles são humanos e praticam o mal”.
Eu diria que estranhamente compaginável com a coluna de Daniel Oliveira: “As vítimas daqui e de lá”, também no Expresso Diário. Mas onde um vê vítimas, o outro vê o bem. E para o outro, onde estão os algozes é que está a morada do mal.
E se, voltando ao princípio deste Expresso Curto, pudéssemos esquecer a religião dos operacionais de Bruxelas como provavelmente já esquecemos a filiação política dos terroristas da ETA e do IRA?
Miguel Cadete
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